Conectividade e hologramas: o pós-pandemia pelos olhos do futurista Gerd Leonhard

Um dos futuristas mais conceituados da Europa, Gerd Leonhard prevê um mundo totalmente remoto, que dependerá de tecnologia, conexão e novas relações no mundo dos negócios

Em meio a uma profusão de futuristas, o suíço Gerd Leonhard se sobressai por seu pragmatismo. Fundador da The Futures Agency, uma espécie de consultoria para o “crescimento evolutivo”, ele se notabilizou por palestras nas quais seu raciocínio agudo e seu carisma estavam em pé de igualdade com a solidez das informações e previsões apresentadas.

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Essas palestras, evidentemente, deixaram de ocorrer diante de uma plateia para serem transmitidas apenas de forma remota. A razão é óbvia: as restrições impostas pela pandemia do coronavírus. E os cenários que se apresentam ao mundo pós-pandêmico, tanto no futuro imediato como nos de médio prazo, se tornaram a base de suas novas apresentações.

Mas esse novo direcionamento não significa uma interrupção dos temas que Leonhard vinha investigando antes que o mundo se confinasse. Boa parte de seu trabalho era dedicado a entender a relação entre homens e máquinas, especialmente no mundo do trabalho. Seu livro Tecnologia Versus Humanidade, de 2016, tornou-se uma das referências para quem procurava entender se o inevitável aumento de uma realidade automatizada nos desumanizaria como sociedade e indivíduos.

Essa discussão permanece relevante, e se faz presente, de forma sutil, em alguns momentos dessa entrevista exclusiva. Porém, a conversa explora ainda outros temas de extrema relevância para o momento atual. A velha pergunta “para onde vamos?” ganha novo significado e maior profundidade na formação desse novo mundo, e a conversa a seguir se propõe a respondê-la.

Gerd Leonhard

Um dos futuristas mais conceituados da Europa, Gerd Leonhard prevê um mundo totalmente remoto, que dependerá de tecnologia, conexão e novas relações no mundo dos negócios.

Orange Business Services: A maneira como organizamos nossa vida já está mudando: das relações sociais às atividades físicas, dos hábitos de compra ao local de trabalho. Quais serão as transformações que provavelmente permanecerão e se aprofundarão?

Gerd Leonhard: A primeira questão é as pessoas vão mudar sua mentalidade sobre todas as coisas. Estamos trabalhando remotamente, de casa – como nós, que estamos falando aqui por teleconferência – e a maioria de nós está dizendo: “ei, isso não é ruim”. No mundo todo talvez só 5% das pessoas trabalhavam de casa, considerando as estatísticas levantadas pela Global Workplace Analytics. E agora são 30%! Outras pesquisas mostram que mais da metade dos colaboradores gostaria de continuar trabalhando remotamente quando o isolamento social acabar. Ou seja: mesmo que voltemos aos nossos escritórios, vamos considerar o trabalho remoto. Isso abre todo um novo mercado em conectividade, teleconferências, até hologramas. Sempre digo que a palavra-chave é “tudo remoto”, mas isso depende da qualidade de tecnologia e de conexão. O que não vai mudar é a necessidade de ver pessoas. Humanos são sociais. Mas ainda não está claro como faremos isso acontecer de maneira segura.

Orange Business Services: E em relação aos negócios, é certo que todo setor está passando por grandes desafios. Mas você vê algum que esteja já se encaminhando em “contagem regressiva” para o ocaso?

Gerd Leonhard: Eu diria que alguns estão, sim, à beira de extinção, mas um deles não é o turismo, como alguns têm previsto. Humanos estão sempre buscando experiências e relacionamentos. Vale um mote que eu ouvia ainda na infância: se você vai ao mar e não tem peixe, você conserta a rede. É verdade que o turismo está sofrendo agora e pode levar muito mais tempo que outros setores para se recuperar. Até termos uma vacina certificada e eficaz será pelo menos um ano e meio, na melhor das hipóteses. Então, durante esse período, as pessoas hesitarão em ir a lugares grandes onde há muitas pessoas juntas. Dessa forma, acredito que haverá uma explosão do turismo local. Imagino que um lugar como Trancoso (BA), por exemplo, terá que se adaptar, ajustar seus preços e sua oferta de serviços para acomodar mais os turistas das cidades próximas, em vez de turistas de grande poder aquisitivo de diversos lugares. Será necessário pensar em um turismo mais sustentável, o turismo de massas vai diminuir muito. Creio que os cruzeiros marítimos, por exemplo, estão acabados, mas essa é uma indústria sem a qual podemos viver. As companhias aéreas precisarão de bilhões, talvez trilhões, para retomar seus negócios, e não poderão manter o modelo que mantinham antes, de praticamente nos empurrar vôos frequentes. É por isso que acredito que o turismo local vai prosperar, assim que descobrir maneiras manter pessoas sem se aglomerar. Porque até as viagens rodoviárias, que são frequentes no Brasil, terão que adotar um novo modelo de negócios. Será muito caro oferecer ônibus com grandes espaços entre os assentos, então existe um grande desafio aí. Eu e outros palestrantes não falaremos em público com frequência. Cada vez mais, veremos eventos na internet. Veja que estamos falando de novos modos de nos comunicar e novos modos de viajar. É um grande impacto. Já as academias de ginástica vão mudar muito. Porque muitos exercícios podem ser feitos de casa, seguramente. Minha esposa está fazendo aulas online, pagas, com controle de horário. A academia dela aqui em Zurique oferece isso. E outras terão que oferecer, porque se você vai ter uma academia de verdade, vai precisar tomar precauções, como espaço de 5 metros entre cada aparelho, uma logística do fluxo de pessoas. Isso vai encarecer o negócio. Por isso, eu diria que tudo que pode ser feito remotamente, as pessoas farão.

Orange Business Services: Durante anos, as pessoas tiveram medo de que a automação eliminaria empregos. Acredito que já ultrapassamos esse momento, porém o medo é de que as restrições da pandemia “matem” vários setores e ofícios. Qual é o futuro do emprego agora?

Gerd Leonhard: Vamos ser honestos: o primeiro objetivo é sobreviver, o segundo é se adaptar. Se você é um taxista ou trabalha no turismo, tem que se preparar para o “modo sobrevivência”: reduzir custos, cuidar para não ficar doente, administrar o dinheiro do jeito que der e acionar o apoio do governo. Só depois é o caso de pensar na reinvenção. Essa adaptação é fundamental. No Brasil, temos 35 milhões de pessoas vivendo na pobreza. O que vai acontecer com elas? Se os governos não apoiarem, vamos ter um aumento no crime, na desigualdade e nos impactos sociais. Anos atrás, qualquer conversa sobre renda básica universal cairia por terra aqui na Suíça, diriam que isso é coisa de governos socialistas. E hoje temos o começo dessa renda sendo distribuída. Coisas novas estão acontecendo, e isso é bom. Mas onde há um número maior de pessoas pobres, como no Brasil, haverá um desafio muito maior.

Orange Business Services: Nas suas palestras pós-coronavírus, você diz que atingimos o ápice da transformação digital. Mas quando pensamos na América Latina, ainda temos muitas empresas que só começaram a pensar a respeito por causa dos efeitos da pandemia, para não mencionar os muitos “analfabetos digitais”. Em que consiste esse ápice?

Gerd Leonhard: O que está acontecendo agora é que as pessoas que acreditavam que a tecnologia não era necessária eram aquelas que nunca a haviam utilizado. Mas é uma grande mudança de hábito em todos os níveis, desde as pessoas de 80 anos que estão pedindo pizza pela internet pela primeira vez até os executivos de banco que estão vendo que é possível fazer home office. Nessas grandes mudanças, os fornecedores de tecnologia serão os grandes vencedores, bem como o e-commerce.

Orange Business Services: Você já esteve na América Latina várias vezes. O que viu no universo corporativo daqui que chamou sua atenção por sua peculiaridade?

Gerd Leonhard: Cada país é diferente. Mas especialmente no Brasil, vejo que os líderes do mundo corporativo são ótimos. Encontrei vários gestores notáveis em São Paulo, em Porto Alegre – pessoas capazes de pensar no futuro, com pensamento progressista. Isso não apenas entre CEOs mas também no mundo acadêmica.Em Portugal, o universo acadêmico e o corporativo estão colaborando muito intimamente com o governo local. Esse tipo de colaboração parece fazer falta no Brasil. Ao mesmo tempo, o Brasil é provavelmente quem tem as maiores possibilidades de mudança no futuro, porque os brasileiros gostam de imaginar, são inventivos. A globalização não vai acabar no mundo pós-pandemia, mas precisamos aprender a ser mais autossustentáveis e ter uma relação mais segura com nossos vizinhos. A União Europeia ou vai ruir ou vai brilhar na reação a essa crise. Ou nos ajudamos uns aos outros com dinheiro, ou a União Europeia se comprova inútil. Acredito que tomaremos o caminho da ajuda. Mas essa cooperação está em falta na América do Sul, vejo que falta uma união e um senso de propósito comum entre os países daí. Isso pode mudar. Dez anos atrás, o Brasil queria ser como os EUA. Mas essa ideia de capitalismo extremo está simplesmente ruindo. O Brasil precisa de um capitalismo social, e essa é toda uma outra conversa (risos). O que vejo de bom é que as pessoas estão começando a se fazer as perguntas certas: o governo está certo? Podemos confiar nos nossos governantes? Esses questionamentos podem levar a novos tipos de lideranças, e isso pode beneficiar toda a região.

Orange Business Services: Para encerrar, gostaria de fazer uma pergunta mais pessoal e talvez mais provocativa: qual o futuro dos futuristas nesse novo cenário tão imprevisível? (risos)

Gerd Leonhard: Tenho dito, em tom de brincadeira, que o futuro nunca foi tão incerto quanto agora. As premissas todas estão sendo questionadas e por isso é muito difícil ser um futurista agora. Como saber com certeza se essa crise levará a líderes mais autoritários ou mais democráticos, por exemplo? O que sei é que esse meu trabalho de falar em público se foi. Tenho que me reinventar, e esse é o destino de muitas outras pessoas também. Os trabalhos estão em modo de espera, incertos. Agora, tendo dito isso, posso citar Milton Friedmann, que disse que só uma crise leva à mudança de verdade. É igual a quando acontece uma crise no casamento: você pode encontrar outro parceiro, ir pra terapia ou não fazer nada. Mas você tem que examinar as possibilidades, não pode ignorar as opções. E cedo ou tarde terá que fazer algo. A crise de hoje é maior que a do 11 de setembro, maior que o crash de 2007/2008. Então, ao final, as mudanças serão maiores.

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